Ouvira falar dele várias vezes.

- É um gênio. Me disse peremptória uma ex professora dele na PUC.

Luiz Felipe Baeta Neves, um antropólogo bastante conhecido aí pela década de 70, insistia que eu precisava conhecê-lo. Lembro-me de Luiz Costa Lima referindo-se a ele com deferência e carinho. Outras pessoas ainda me falaram de Luiz Eduardo Soares, antes que eu cruzasse, no velho Lamas do Largo do Machado, com um jovem de 21 anos, longos cabelos encaracolados e um sorriso luminoso no rosto. Conversamos. Constava que havia passado em primeiro lugar na exigente seleção do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRJ entre 86 candidatos, mas não podia cursá-lo imediatamente, pois ainda estava na graduação. Trocamos informações sobre mais duas ou três trivialidades e ele me assegurava que, no semestre seguinte, iniciaria seu mestrado.

Mal sabia eu que aquele encontro teria o sentido de ampliar e sofisticar o significado da amizade para mim.

Talvez seja só por isso que me animei a tonitroar o que a elegância exige que seja discretamente considerado e vivido.

Acontece que o meu amigo já não se pertence e deixou de ser a pessoa física, particular, da família e dos amigos. Tornou-se a pessoa pública, não só do Rio de Janeiro, mas do Brasil, como pude testemunhar em alguns estados.

Ocorre que suas propostas públicas têm a marca de uma radicalidade que sua mansidão jamais abrandou ou requentou. E falar em radicalidade implica – como é óbvio – tocar no que geralmente não se toca porque subterrâneo, mas que se revela ao toque desconcertantemente simples e elementar.

Esse me parece o primeiro mister da esperança. No cipoal complicado dos impasses, recusar os quebra-galhos da conveniência e varrer de vez os cipós de nosso chão.

Foram tantos os magos, os miraculosos, os redentores que surgiram no recente cenário político, nascidos de conversas entre amigos em viagens escusas, de pranchetas publicitárias ou de outros laboratórios falidos, para citar o velho Drummond, que - e embora Luiz Eduardo tenha uma noção muito clara das densidades específicas e das relações entre mundo privado e mundo público – é preciso que se diga para os que não o conhecem pessoalmente: "olha, este é de verdade". Recomendação dispensável para quem já trabalhou com ele. Para quem com ele estudou. Ou, simplesmente dele esteve frente a frente numa boa conversa.

Sem confundir o público e o privado, com suas lógicas específicas, suas linguagens particulares, seus rituais peculiares, talvez a prova dos nove para saber se o personagem é de verdade revela-se quando no interior dos universos específicos observam-se traços que se correspondem.

O extremo carinho com que Luiz Eduardo diz a seus amigos, colaboradores, colegas sempre o que pensa. Exercita a arte da discordância e mantém-se sempre fiel a suas percepções, mesmo naqueles momentos em que muitos fingem concordar, desconsideram, pelo comodismo "gentil" de manutenção de certos climas sociais. Esses climas ele mantém em outro plano, mais elevado. Em uma sociedade em que dizer desaforo é "dizer umas verdades", ele consegue dizer suas verdades sem ser desaforado e fazer o outro perceber a deferência e a consideração de quem percebe a relação como verdadeira.

A par disso, é extraordinária sua capacidade de escuta, sua consideração minuciosa do discurso do outro. A possibilidade de se rever a partir do outro.

Ora, tais qualidades e seu exercício constante soam para mim como um exercício existencial equivalente a um método de aprimoramento que se concentra exatamente nesses processos básicos e elementares da sociabilidade: ouvir, falar.

Suas aulas, conferências constituem um prazer intelectual notável. Seduz e cativa auditórios com a fluência e clareza que apenas alcançam os que se deram a exercícios complexos e severos.

Contudo, de maior qualidade e mais impressionante que sua fala é a sintonia fina que revela ao ouvir, ao considerar o interlocutor.
Acompanhei-o em Porto Alegre em várias reuniões onde buscava as vozes da periferia, das minorias e, durante horas, debruçava-se sobre angústias, problemas, reclamações candentes, muitas vezes expressas asperamente – isto quer dizer sofridamente -. Nunca o vi desconsiderar qualquer das colocações, por mal-criada, pelo adiantado da hora, ou por eventual falha de memória. Depois de horas de encontro, lá estava ele a reproduzir, comentar, relacionar as múltiplas vozes, num misto de paciência e entusiasmo.

Um traço forte: a revelação entusiasmada de que a fala alheia lhe trouxe algo novo, pôs em xeque convicções pessoais.

Essa articulação entre, de um lado, o compromisso ético com o que acha certo e a responsabilidade de evidenciá-lo e, por outro lado, a capacidade de mudar com o outro me parece uma qualidade pessoal essencial para afiançar o político. Chamar a atenção para a isso é evitar qualificações abstratas e de complicada comprovação. É traço forte que se verifica e comprova nos primeiros contatos.

Ao dizer isso pretendo chamar sua atenção: Luiz Eduardo Soares poderá significar na vida pública brasileira uma novidade. O fim do iluminado, do Dr. de receita em punho, do intelectual que intuiu o mapa e o rumo.

Isto sem correr o risco da improvisação, do depreparo dos marias-vão-com-as-outras. Essa escuta tem método e um saber. Essa fluência não é de ouvido. Tem pauta, mas tem também flexibilidade.

Peço portanto desculpas à simpática e entusiasmada professora da PUC, com sua condoreira e borbulhante noção de gênio. Plantado no chão de um Brasil possível, Luiz Eduardo é de verdade.

Não impõe a ninguém sua melodia, mas sabe harmonizar como ninguém.

Helio R. S. Silva é antropólogo e escritor